Ao ouvir esta pergunta, Clara que estava de pé, se encostou na parede assustada. Ela temia que a alegria fosse de vez banida daquele lugar, que a esperança e a inocência desaparecessem. Elas eram alegres, podíamos ver isso nos imensos arranjos de flores que colocavam no chapéu. O primeiro ministro se aproxima de Clara para tentar conter seu espanto. Naquele bar ninguém mais poderia sentir nada.
Na autópsia não foi constatado a dilatação do coração, como havia dito o príncipe que as conheceu. Ele as via por meio de um coração atrofiado, todos sabiam disto. Mas o delírio que as envolvia, e a intensidade da amizade entre elas, fazia mal aquele que carregava no peito um coração emagrecido.
Em outra parte da cidade havia um bar. Os casais do lugar se encontravam ali, a realeza não escondia o desdém sobre aquele café onde se ouvia gargalhadas fartas. Muitos comentavam sobre o que teria levado aquelas mulheres a morte, porque seus corpos foram tão severamente investigados? Do outro lado do bar uma mulher solta um riso longo, e pegunta: "vocês não sabem?"
Quando Lúcio soube do novo decreto foi tomado por um torpor. A vertigem que o acometida tinha seus motivos, ele não conseguiria viver sem amar, precisava dos afetos para se vincular. O sexo não lhe bastava. O primeiro ministro foi categórico: " desta data em diante, o príncipe decreta que qualquer manifestação de afeto será considerada crime, a não ser que sejam dirigidos para ele."
Ela havia acabado de colocar ponto final em uma série de encontros que aguavam qualquer possibilidade de amor. Os que sabiam disto a chamaram de desvairada. Ela retrucou dizendo que não, se dizia doente por ter se apaixonado por alguém com o coração atrofiado, e comentou: se estivesse louca teria partido mais cedo, pois a paixão é o outro em nós, e em mim só existia eu mesma. A alegria explodiu iluminando todo salão.
Esta inquietude que me consome e me faz andar entre renegados e esquecidos, se mantém na acidez de minha pele, no cheiro de enxofre que exalo. Solitário, resta-me ter o prazer por companhia, ele que abranda esta maldição de ser um dos filhos de D-us. As asas que ganhei não são suficientes para aliviar o peso que carrego de ser eu, e apenas eu, aquele que consegue ler a si mesmo.
Meu avô veio para o Brasil para escapar de uma guerra. Certa vez perguntei a ele se era o amor que fazia as pessoa viverem, ao que ele me respondeu: as pessoas vivem não porque sentem amor a vida, se assim fosse a deixariam melhor do que a encontraram. Elas vivem porque não encontraram coisa melhor para fazer, e o suicido não lhes pareceu uma alternativa convincente. Eu gostava de conversar com meu avô.