Segurança Pública, Direitos Humanos e Antissemitismo.

Sócrates Nolasco, 10 de dezembro de 2025.

 

Trabalho apresentado no evento organizado pela B’nai B’rith Rio de Janeiro e realizado na Sinagoga Beit Lubavitch Leblon.

 

 

Boa noite a todos. Eu quero agradecer a B’nai B’rith, aqui representada pela Desembargadora Denise Levy Tredler, pelo convite e oportunidade de participar desta mesa, ao lado da Dra. Denise Frossard e Roberto Motta.


Quando a ONU criou esta data[1], o fez para ratificar a adoção de princípios como o direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal, em contraste com as políticas de extermínio vigentes durante a Segunda Guerra. 
Faz muito tempo que as guerras acompanham a civilização. Paul Celan[2] se referiu ao leite-breuservido dentro dos campos e extraído das contradições sobre as quais se sustentavam os argumentos antissemitas. Disse ele: “a morte é a mestra da Alemanha que nos ensinou a cavar túmulos no céu”. Celan esteve preso em um campo de trabalhos forçados. Nesse poema, ele mostra que sob o céu civilizado europeu, Wagner, Liszt, Strauss e outros mais, se alegrariam ao ver sair fumaça das chaminés. Por esta razão, o antissemitismo lesa a própria concepção de humanidade.

 

O Dia Internacional dos Direitos Humanos serve para lembrar a humanidade o que ela é capaz de fazer quando se transforma numa fábrica de desumanização e morte. Diante da obsessão cega presente no comportamento antissemita, podemos dizer que viver de repetições é o que resta a uma parte da humanidade que foi tomada pelo que desconhece existir em si mesma, e se alimenta do ódio moralmente justificado. Quando não é interditado ou elaborado, este ódio põe a vida em risco e deteriora a malha social, cala a esperança, instala a descrença e abre frente para culpar terceiros por este estado de coisa. Mapear os componentes que constituem esta barbárie para analisá-los em profundidade, dá sentido ao que, à primeira vista, parece insensato. Isto nos permite saber o papel que a imagem do judeu tem na trama antissemita.  

 

Walter Benjamin[3] disse que “escrever história significa dar fisionomia às datas”. Eu tentarei descrever a fisionomia do antissemitismo, partindo de três elementos que o constituem: a destrutividade humana; a participação das massas e do inconsciente. Afinal, que função tem o ódio ao judeu para a sociedade que o replica, senão protegê-la do que ela se recusa a admitir como seu? 

 

A destrutividade esmaga a gentileza, a empatia, o entendimento e a compaixão que nutrem vínculos interpessoais. Quando presentes, estas habilidades favorecem o diálogo e reduzem tensões. Oposto a isso temos o ódio que distorce o juízo e toma fantasias sobre o outro como se fossem reais, como fazem as massas. Uma vez no controle, o ódio põe a razão de joelhos e a usa para se justificar. Desde os primórdios que extermínios são realizados com aval das massas, essa tendência do ser humano causar dano, sofrimento ou aniquilação a outrem. Em essência, o Mal radical[4] nega a alteridade que funda a Civilização. O antissemitismo é uma antítese dos princípios civilizatórios que, para se perpetuar, usa causas sociais como disfarce, tentando se passar como um defensor da humanidade. Como exemplo, temos os movimentos pró-Hamas que manipulam a opinião pública e avançam usando-a como degrau. Ataques antissemitas negam a realidade. O que significa dizer que o antissemita não reconhece o judeu como um ser autônomo, independente do clichê criado para ele. Quando a alteridade é reconhecida como um princípio, a estranheza, enquanto expressão da diferença, não se converte em ódio. A alteridade é a face do Outro materializada no reconhecimento, respeito e direito de existir. 

 

Por ser impulsionado pelo Mal radical, o pensamento antissemita é pretencioso e anseia englobar tudo, eliminar diferenças e singularidades. É um pensamento fechado, concreto, que não duvida de si mesmo, não se questiona e se recusa aceitar a transcendência como expressão da existência do Outro. Um pensamento como este depende da invenção de inimigos imaginários para compor a farsa criada para substituir os fatos. Alimentado por este Mal, o antissemita põe fim ao diálogo e se fecha a exterioridade. Se o antissemitismo se repete historicamente, isto sugere que sua permanência tenha alguma função para as sociedades que o preservam, haja vista que, este comportamento desloca para o judeu o ódio que os membros dirigiriam à estas sociedades. Neste sentido, o antissemitismo é um operador de cultura a serviço de sociedades fragmentadas e ameaçadas pelo ódio interno que poderia destruí-las. Portanto, o antissemitismo teria como função converter a destrutividade inconsciente dos indivíduos em movimento de massa. 

 

Como a civilização lida com sua destrutividade? A antropologia mostra que sacrifícios humanos eram realizados para conter o ódio que emergia entre os membros de uma determinada comunidade. Posteriormente, os humanos foram substituídos por animais e, gradativamente, a vítima expiatória foi simbolizada até que se tornou uma categoria da linguagem incorporada ao pensamento[5]. Do ato se passou a palavra. Muitas culturas preservaram a concepção de sacrifício tornando-a um eixo em torno do qual se organizou o psiquismo e visões de mundo. A vítima expiatória faz parte de um sistema psicossocial acoplado a crenças usadas para conter a destrutividade. Na medida em que a vítima expia a violência potencial presente nos membros de uma comunidade, ela protege indivíduos e sociedade da violência de ambos. Assim como os sacrifícios, o pensamento antissemita tem esta função.

 

No antissemitismo encontramos comportamentos ritualizados guiados pela ideia de sacrifício e alinhados a mitos e símbolos que deturpam a imagem do judeu, como acontece na malhação de Judas. Junto a isto, é comum o uso de gestos e linguagem repetitiva, postos a serviço de clichês populares. Esta dinâmica faz parte de um psiquismo que opera com imagens deturpadas para se esquivar de tudo aquilo que o antissemita odeia em si mesmo. Quando fala sobre o judeu, se sabe mais sobre o antissemita do que sobre o judeu propriamente. Esta dinâmica serve como porta de entrada para o inconsciente onde estão alojados conflitos de ódio. Pavese dizia que “odeiam-se os outros porque se odeia a si mesmo”[6]. O ódio está na base do pensamento antijudaísmo que inspirou vários estereótipos de judeus. Nas palavras de David Nirenberg[7], o antijudaísmo se tornou um princípio constitutivo e fundamental do pensamento ocidental, ao longo de mais de três séculos. Um comportamento cujas raízes remontam ao século III, quando Constantino instituiu o cristianismo romano. Estas raízes se fortaleceram no período medieval e avançaram marcando inicio do antissemitismo moderno. Joshua Trachtenberg[8] escreveu que "se o judeu é hoje desprezado, temido e odiado, é porque somos herdeiros da Idade Média. Se é possível para demagogos semear as sementes da desunião e da discórdia, despertar emoções fanáticas e colocar vizinho contra vizinho, é porque a figura do judeu 'demoníaco', menos que humano, de fato, anti-humano, está presente na criação da mente medieval, e ainda domina a imaginação popular dos dias de hoje”. 

 

É curioso como o imaginário popular se desincumbe de responsabilidades e das consequências das próprias escolhas. Faz parte da história do cristianismo uma passagem na qual Pilatos perguntou a multidão que assistia o julgamento de Jesus e Barrabás, qual dos dois ele deveria libertar. A multidão escolheu Barrabás. De forma semelhante, Goebbels em seu discurso de 18 de fevereiro de 1943, se dirigiu a multidão para saber o que ela desejava. Ambos buscaram anuência do público para dar prosseguimento a seus planos. Perguntou ele: “os senhores estão dispostos, a partir de agora, a colocar todas as suas forças à disposição da guerra, ... os senhores querem que a Guerra Total seja ainda mais total e radical do que se pode sequer imaginar hoje? Portanto, levantem-se, Povo, e deixem a tempestade irromper!". Algo semelhante aconteceu entre o Hamas e uma grande parte da população de Gaza que o apoia. A destrutividade também confere uma fisionomia a massa, particularmente quando estimula indivíduos a fazerem o que não fariam se estivessem sozinhos. 

 

Os movimentos BDS e Palestina Livre seguem os mesmos passos. Redes sociais, mídias, a ONU, a UNRWA e tantas outras instituições que apoiam o Hamas, adotam uma estratégia segundo a qual Israel expia a autodestruição de cada um desses grupos. Diante da dificuldade de sustentar seus argumentos na presença dos fatos, o antissemitismo busca respaldo na massa se relacionando com ela por meio de fabulações dramáticas que acessam o inconsciente, fazendo-a crer que o que está sendo dito sobre Israel e o judeu, é a verdade. Pensem no método usado por Edward Bernays para aumentar o número de fumantes nos Estados Unidos. Assim como o slogan “Free Palestine”, Bernays criou o "Torches of Freedom"[9], inspirado na imagem da Estátua da Liberdade. Uma estratégia para vender fumaça as mulheres como se estivesse vendendo liberdade. Nova York 1929, durante a Parada de Páscoa, modelos elegantes e bem vestidas foram contratadas para carregarem cartazes com o slogan “Tochas da Liberdade”. No dia seguinte, as fotos dessas modelos estavam em todos os jornais. O conceito da campanha era de que a mulher moderna deveria se libertar do que a aprisionava ao tradicional, usando para isto o cigarro como elemento fetiche, uma tocha de liberdade ao alcance das mãos. 

 

No inicio dos anos 30, acreditou-se que este seria o jargão da mulher livre. O cinema reforçou este conceito quando levou para as telas atrizes cujo glamour esteve vinculado ao cigarro. Era preciso eliminar a ideia de que fumar comprometia a reputação da mulher. Se beneficiando do movimento feminista, Bernays aumentou exponencialmente as vendas de Lucky Strike. Nos dias de hoje, de forma similar, atores usam broches ou bandanas que representam o Hamas, e desfilam com eles em festivais de cinema e música. O Hamas foi glamourizado por universidades, mídias e instituições que o transformaram na maior, mais importante e única vítima contemporânea. Novamente, a vítima ganhou destaque nos dias atuais, se tornando o herói do nosso tempo, como escreveu Giglioli. Ser vítima dá prestigio, exige atenção, promove e promete reconhecimento, imuniza contra qualquer crítica. Tanto o Hamas, quanto os demais antissemitas sabem disto. Porém, assim como o cigarro, o Hamas mata. 

 

O que me leva a crer que o comportamento antissemita faça parte de um complexo de sentimentos e memórias inconscientes que ficaram sem elaboração e cuja origem está vinculada a imagem do judeu, percebido como o representante da Lei, nos termos definidos pelos Dez Mandamentos. O ódio ao judeu disfarça o ódio a Lei. O antissemita não tolera a realidade pela relação que ela mantém com a Lei. A Lei impõe sacrifícios, conceções, restringe o prazer e frustra. Por conta disto, o antissemita constrói uma ficção denominada realidade relativa dentro da qual se autoproclama a vítima que exige justiça, que não renuncia a nada, não se sente culpada ou responsável por seus atos. Uma vez neste papel, o Hamas nega as contradições que carrega dentro de si. O antissemita destituiu a vitima expiatória de seu lugar para ocupá-lo como se fosse seu. Com isso, a versão que cria para si mesmo é uma imitação da vida do outro, uma repetição abreviada, motivada pelo desejo de ser como ele, como acontece com o Hamas em relação a Israel. 

 

Ao longo do tempo, a destrutividade prosperou entre os bem intencionados, como aconteceu com a multidão que ouviu Pilatos, a Inquisição, Goebbels e o Hamas. Uma massa de indivíduos que abriu mão do discernimento e da lucidez, com intuito de deslocar para o mundo conflitos e culpas decorrentes das escolhas que fez. No livro A Queda, Camus retrata a hipocrisia e a falsa inocência que ronda a condição humana e o mundo moderno. Ele critica o virtuosismo de fachada que se apoia numa falsa inocência planejada dentro de organismos internacionais, por exemplo. Não foi por causa do Captagon, uma anfetamina usada pelos terroristas, que o Hamas não se responsabilizou por seus crimes. Mesmo sem estar sob efeito da droga, o grupo não sente culpa pelo 7 de outubro. Sentir-se livre para matar é o desejo de todo assassino que age sem medo, censura ou repressão, como se tivesse destruído o principio da Lei, para viver mergulhado na onipotência e no prazer sem consequência. 

 

Hitler[10] dizia: “temos que ser cruéis. Temos que recuperar a consciência tranquila para sermos cruéis”. No 7 de Outubro, o Hamas fez o mesmo em relação a Israel. Heinrich Himmler[11], em Visões, disse que “a melhor arma política é a arma do terror, pois a crueldade impõe respeito. Os homens podem nos odiar. Mas não pedimos o amor deles; apenas que tenham medo de nós”. 

 

O Quinto Mandamento tenta conter a destrutividade humana. Em Bereshit, 4:15, depois de Caim assassinar seu irmão, Deus lhe colocou um sinal para que ninguém o tocasse: “qualquer um que matar Caim, sete vezes será castigado”. A determinação Não Matarás está presente no rosto de Caim. Um impedimento que pode parecer paradoxal, mas que lembra a humanidade o que ela é capaz de fazer quando se deixa conduzir pelo ódio. Em outra passagem, conhecida como o Sacrifício de Isaac, Deus mostra aos homens que a cegueira pode por em risco o que há de mais precioso em suas vidas. Sem a prova de fé, Abraão não saberia que seria capaz de matar o próprio filho. Sem a interdição de Deus, ele teria tirado a vida de Isaac. Assim como a Lei, a presença de Deus revela e interdita a destrutividade humana.  Deus é a própria encarnação da alteridade, o totalmente outro, a transcendência pura. 

O antissemitismo é mais que um preconceito: é um mecanismo psicossocial alimentado pelo desejo de eliminar as restrições que as Leis civilizatórias impõe ao indivíduo que, diante delas inventa a moralidade da vítima para burlá-las. Como o judeu ficou no papel do recebedor das Leis, através dos Dez Mandamentos, atacá-lo significa deslegitimar as Leis para substitui-las pela lei do desejo sem limite. O antissemita reivindica ser a própria Lei. Segundo esta perspectiva, saímos de um registro simbólico em que Deus fez o homem sua imagem e semelhança, para um outro em que o Homem, se pondo no lugar de Deus, faz o Homem sua imagem e semelhança. Do temor a Deus passou-se ao temor da destrutividade humana, o que mergulhou as sociedades no abismo da falta de sentido, e gerou uma crise ética sem precedentes. Não encontramos honestidade no antissemitismo. Todo antissemita é um cínico que se sente moral e intelectualmente superior a todos os outros indivíduos. Por causa dessa superioridade ignora o interesse dos demais, exceto os dele.

Portanto, o ódio ao judeu é expressão de um conflito mais profundo entre o Eu e a civilização, que busca eliminar o princípio da alteridade sob a forma de ofensivas contra a Lei e de seus representantes, por conta do mal-estar que isto gera nos indivíduos. Desta maneira, criou-se uma sociedade povoada pelo egoísmo, vazia de sentido, repleta de guetos e sem um propósito comunitário. Para escapar do vazio, o antissemita mergulha num estado de prazer sem restrições que inclui a liberdade de matar sem culpa. Dito de outro modo, é um estado em que a palavra está morta e foi substituída pela barbárie. É necessário tornar o Dia Internacional dos Direitos Humanos uma declaração Ética, não uma disciplina secundária, mas uma filosofia que precede a ontologia. Neste aspecto, precisamos fortalecer a Ética dos deveres. Levinas[12]disse que a abertura ética é a irrupção do infinito no Rosto do Outro, o que impõe ao Eu uma responsabilidade incondicional. Segundo este autor, o mandamento “Não Matarás” é a primeira palavra que qualquer Rosto profere.

Para terminar, eu gostaria de dizer que aprendi que não há esperança sem medo, nem medo sem esperança. A vida tem caminhos próprios, por vezes, duros e dolorosos. Se perdemos a vontade de viver, afastam-se de nós a esperança, a coragem, a fé e a força para transformar sofrimento em superação, como fez Paul Celan. O antissemitismo mostra que a morte experimentada na luta pelo reconhecimento não é uma necessidade biológica. Ela se manifesta na esfera interpessoal quando desapareceram valores consistentes oriundos de uma moral não utilitária. Dreyfus e Herzl sabiam disso. Caso o desânimo se instale e pese as costas, não é hora de baixar a cabeça, mas de lutar com dignidade, inteligência e determinação, sustentado por uma conexão harmônica e vigorosa da razão com o coração.  

SN.

 



[1] O Dia Internacional dos Direitos Humanos foi definido pela Assembleia Geral das Nações Unidas no dia 10 de dezembro de 1948.

[2] Celan, Paul (1947), Fuga Sobre a Morte, in: Cristal, SP: Iluminuras, 1999.

[3] Esta frase aparece na seção Anotações que compõe o Trabalho das Passagens, 1927.

[4] Mal Radical é um termo que foi usado por Primo Levi. Esta expressão pode ser encontrada nos trabalhos É Isto um Homem?Os Afogados e os Sobreviventes (1986). Ver também a relação desta expressão com o que ele chamou de Zona Cinzenta, um espaço moralmente ambíguo em que as vitimas eram obrigadas a colaborar com os nazistas.

[5] Ver A Violência e o Sagrado, de Renè Girard e A Invenção de Deus de André Gounelle, Alain Houziaux e Renè Girard, de 2007.

[6] Pavese, Cesare (1946). O Oficio de Viver, Turim.

[7] Rabino. Este trecho aparece no trabalho The Devil and the Jews: The Medieval Conception of the Jew and Its Relation to Modern Anti-Semitism, 1943

[8] Trachtenberg, Joshua (1943). The Devil and the Jews: The Medieval Conception of the Jew and Its Relation to Modern Anti-Semitism. US: Yale University Press.

[9] Ver Edward Bernays, 1929. Trabalho realizado para American Tabacco Company. 

[10] Minha Luta, 1925-26.

[11] Ver discurso de 4 de outubro de 1943.

[12] Ver Totalidade e Infinito: Ensaio sobre a Exterioridade (1961) e De Outro Modo Que Ser ou Para lá da Essência (1974) 

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