LUX

 

Os labirintos que atravessei me levaram a fazer escolhas que me faziam retornar as minhas feridas. Precisei de tempo para mapear os percursos, tempo para escapar do rancor e da vitimização, tempo para perceber que cada lança enterrada no peito teria partido das ilusões desfeitas. Não perdi a alegria de viver, nem a coragem de enfrentar o que trazia comigo, feridas que precisaram ser tratadas para que um dia pudessem se tornar parte da riqueza que é estar vivo e sobre minhas próprias pernas. As feridas tinham nome e pertenciam ao reino do “como logo eles puderam agir comigo com tamanha crueldade”. Depois que deixei o campo, passei uma boa parte da vida retornando a ele, procurando algum sentido, mas com a alma dilacerada e sem saber o que fazer com meu coração depois de tudo que passei. Só, engasguei várias vezes e engoli a seco quando duvidava de minha habilidade para superar tudo aquilo. 

 

Nestes momentos, eu sentia a vida pulsar lá onde as palavras ainda não haviam chegado. Eu sentia que não estava sozinho quando via a brutalidade ser transformada em estupidez, a empáfia se desfazer no vazio que a constituía e o sadismo se revelar como parte da miséria humana. O poder do outro que feriu minha carne foi convertido em lucidez. Pela primeira vez, eu vi as entranhas sobre a mesa. Delas exalava um fedor semelhante aquele percebido quando nos aproximamos do rei. A coroa estava no chão, o manto e o cetro também. Deixei minha consciência me conduzir na direção do que me tornava humano como os demais, sem, contudo, jamais esquecer do que me haviam feito. 




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