Trecho do livro Não Matarás, de Sócrates Nolasco
(Editora Jaguatirica).
"Faz muitos anos que palavra judeu circula no imaginário social de diferentes culturas. Todavia, os vários sentidos conferidos a uma palavra não aportam o falante no mundo da matéria. Dependendo do sentido dado a uma palavra, ela pode chegar até os conflitos que deixam o indivíduo perturbado ou irritado. Isso ocorre porque a relação que todo indivíduo mantém com a palavra faz parte de sua subjetividade, diferente, por exemplo, da relação que a representação mantém com o mundo, onde a verdade foi ancorada. Me refiro as leis que regem os fenômenos naturais, como aquelas descritas pela Física. Por outro lado, os discursos de ódio em relação ao judeu, ou a Israel, reivindicam para si a autoridade sobre as palavras usadas para representa-lo, como se o que dissessem sobre o judeu equivalesse a uma lei da Física. O que se observa nas manifestações de antissemitismo, é o ódio sendo conduzido pela intenção do manifestante, oriunda de uma organização subjetiva, cuja complexidade faz o indivíduo incorrer em uma serie de equívocos, mas que ao mesmo tempo não os leva em consideração. A subjetividade humana não gravita em torno do corpo, pelo contrário, ela depende do corpo e do funcionamento de seu aparato para existir e se manifestar.
Miguel de Unamuno dizia que:
“o defeito do Discurso do Método, de Descartes, reside na sua resolução de se esvaziar de si próprio, de Descartes, do homem real de carne e osso, do homem que não quer morrer, para ser um mero pensador – ou seja, uma abstração. No entanto, o homem real regressou e meteu-se à força na sua filosofia...”
No antissemitismo, o judeu originário de abstrações e fantasias foi forçado a entrar no judeu do mundo material. Nas analises que fez sobre o Discurso do Método, Unamuno chama atenção para uma crença que se estabeleceu em torno da afirmativa: penso, logo existo. Para ele, a existência precede o pensamento, haja vista que, sem existir, o individuo não teria recursos para pensar. Uma reflexão simples, mas que foi deixada de lado para sustentar a crença de que o pensamento consciente estaria acima de toda consciência do ser, ou ainda, que haveria um pensamento puro, sem consciência de si, e de onde originou o judeu o qual se refere o discurso de ódio. Nesta perspectiva, coube a palavra a incumbência de definir a existência a partir do discurso. Possivelmente, essa foi uma das razões pelas quais a filosofia se tornou um cemitério de ismos. A consciência, o significado e os ideais são algumas das possibilidades que a existência humana traz consigo, tendo sido o objetivo da filosofia, demonstrar que não somos tolos por fazermos aquilo que queremos fazer. Essa reflexão feita por Oliver Homes Jr, serviu de introdução para o que Edelman chamou cemitério de ismos filosóficos."

Comentários
Postar um comentário